Do Jardim do Éden — um lugar pacífico onde os animais não eram comidos — à teologia do domínio, passando pelas controvérsias bíblicas sobre quais animais podem ou não ser comidos, a Bíblia contém muitas passagens e ensinamentos sobre os animais. Inevitavelmente, isso gera muita discussão entre as pessoas de fé sobre o que — ou quem — elas devem ou não comer. Então, afinal, o que o Novo Testamento diz sobre comer animais?
A Bíblia diz que é permitido comer animais?
No Antigo Testamento, no livro de Gênesis, quando Deus cria o mundo em sete dias, podemos ver com bastante clareza Suas intenções:
“E Deus disse: ‘Eis que vos dou todas as plantas que dão semente, e que se acham sobre toda a face da terra, e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos servirá de alimento. E a todos os animais da terra, e a todas as aves do céu, e a todo ser que se arrasta sobre a terra, em que há fôlego de vida, dou todas as plantas verdes como mantimento.’”
Em outras palavras, afirma o filósofo cristão Simon Kittle: “Deus criou o mundo vegano. E é esse mundo vegano que Deus declara como sendo muito bom (Gênesis 1:31).”
O grupo Christian Vegetarians and Vegans UK aprofunda: “Do ponto de vista bíblico, a ideia de qualquer animal — humano ou não — comer algo além de plantas só surgiu após a Queda. Isso, por si só, já deveria dizer algo ao leitor.”
Somente após o Dilúvio — quando Deus limpou o mundo do pecado — é que Ele permitiu o consumo de animais. Então, devemos comer animais com a bênção de Deus? O rabino Marc Gellman escreve sobre Gênesis 9:3–6: “Essa passagem deixa claro a crença bíblica de que comer carne é, aos olhos de Deus, uma concessão lamentável à fraqueza humana, não uma virtude.
”Kittle afirma: “Essas passagens são mais bem interpretadas […] à luz do tema mais abrangente da paz, um tema incorporado, é claro, na pessoa de Jesus Cristo. A Bíblia deixa claro que, em cada passo, Jesus resistiu ativamente — embora de forma não violenta — à opressão e ao mal.”
Quais animais são impuros?
Mais adiante, em Levítico 11, o Senhor fala a Moisés e Aarão e determina quais animais podem ser comidos e quais devem ser evitados. A lista é interessante: qualquer animal que tenha casco dividido e rumine pode ser comido. Animais aquáticos podem ser consumidos se tiverem nadadeiras e escamas. Insetos que possuem asas e conseguem voar são permitidos, contanto que tenham articulações nas pernas acima dos pés. Todos os outros animais fora dessas definições eram considerados “impuros”. Vários tipos de aves não deviam ser comidos, e o consumo de morcegos era expressamente proibido.

O que o Novo Testamento diz sobre comer animais impuros?
No Novo Testamento, Jesus aboliu essas regras quando “declarou todos os alimentos puros” (Marcos 7:18–19): “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele, isso é o que contamina o homem.”
Com essa declaração, o que as pessoas comem passou a ser uma escolha pessoal, baseada somente em sua própria consciência.
O que o Novo Testamento diz sobre os animais?
A Bíblia está cheia de mensagens contraditórias sobre os animais, e no Novo Testamento, a ideia da dominação hierárquica dos humanos sobre os animais continua a ser ensinada:
“Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Mesmo assim, nenhum deles cairá sobre a terra sem a permissão de vosso Pai. E até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos pardais.” (Mateus 10:29–31)
E ainda:
“Considerai os corvos: eles não semeiam nem ceifam, não têm despensa nem celeiro; e Deus os alimenta. Quanto mais valeis vós do que as aves!” (Lucas 12:24)

A controvérsia da carne na Bíblia
Uma das grandes controvérsias bíblicas era sobre a aceitação ou não de se comer carne que havia sido sacrificada a ídolos e depois vendida no mercado, uma prática comum na época. O site bíblico Got Questions explica:
“Os judeus não queriam ter nenhum contato com esse tipo de carne, por receio de práticas alimentares ‘impuras’ e por acreditarem que comer carne consagrada seria dar aprovação implícita à idolatria — uma espécie de idolatria indireta. Já os gentios rejeitavam essa ideia e acreditavam que podiam comer essa carne sem estarem adorando ídolos — afinal, não haviam feito o sacrifício. A questão começou a gerar conflito dentro da própria igreja.”
Hoje em dia, a controvérsia bíblica mais comum gira em torno de uma pergunta importante: Mas Jesus não comia carne? De fato, está escrito que Jesus comeu peixe após a ressurreição, mas não há menção explícita de que ele tenha comido carne além de peixe. Na Última Ceia (Lucas 24), são mencionados apenas pão e vinho.
A ONG cristã SARX, que defende o bem-estar animal, responde: “Havia muitos aspectos indesejáveis na vida na Palestina do século I. O fato de que Jesus podia legalmente ter escravos significa que devemos fazer o mesmo? E o que um conselho de igualdade diria se a escolha dos discípulos por Jesus — exclusivamente masculina e monoétnica — fosse adotada como modelo de liderança eclesial hoje?
Talvez, ao percorrer os corredores do supermercado, devamos nos fazer outra pergunta. Para nós, que não vivemos na Galileia do século I, mas num tempo e lugar em que comer carne causa enorme sofrimento e destruição ambiental, talvez a pergunta-chave seja: ‘O que Jesus gostaria que comêssemos hoje?’”
A visão de Pedro
Nos Atos dos Apóstolos, São Pedro teve uma visão que alguns acreditam ter removido as restrições sobre os animais que podem ser comidos. Está escrito:
“Ele viu o céu aberto e algo como um grande lençol descendo à Terra, preso pelas quatro pontas. Dentro havia todo tipo de animais de quatro patas, répteis e aves. Então uma voz lhe disse: ‘Levanta-te, Pedro. Mata e come.’
‘De modo nenhum, Senhor!’ Pedro respondeu. ‘Jamais comi algo impuro ou imundo.’
A voz lhe falou novamente: ‘Não chames impuro ao que Deus purificou.’
Isso aconteceu três vezes, e imediatamente o lençol foi recolhido ao céu.”
Mas há outra interpretação: que essa visão nada tem a ver com permissão para comer todos os animais. Alguns cristãos sugerem que, no contexto da missão de Jesus, Pedro estava sendo ensinado que o Evangelho era para todos os povos — até mesmo os “impuros” centuriões romanos.
As cartas de Paulo e sua intenção
Tradicionalmente se acreditava que a “Carta de Paulo aos romanos” — antes de suas “Cartas aos coríntios” — indicava uma revogação da lei sobre quais animais podem ser comidos. Mas, dado o contexto e o fato de que o debate sobre carne sacrificada a ídolos era polêmico na época, outros estudiosos acreditam que Paulo estava, na verdade, se referindo a essa segunda questão quando escreveu:
“Estou plenamente convencido no Senhor Jesus de que nada é impuro em si mesmo. Mas, se alguém considera alguma coisa impura, para ele é impura. Se o que você come entristece seu irmão, você já não está agindo com amor. Não destrua, por causa da comida, aquela pessoa por quem Cristo morreu.”
Essa interpretação é reforçada pelas “Cartas aos coríntios”. Ali, Paulo esclarece que pelo fato de um ídolo não ser “nada”, não há nada de imoral em comer carne que havia sido oferecida a um — e que nem era necessário perguntar se a carne havia sido sacrificada. No entanto, ele diz que devemos ser sensíveis às crenças dos outros, e que é melhor não comer carne do que causar escândalo.
As instruções a Timóteo
A primeira carta de Paulo a Timóteo adverte contra falsos mestres que exigem a abstinência de certos alimentos. Alguns acreditam que essa passagem indica que devemos abandonar a distinção entre animais puros e impuros e comer o que quisermos. Outros creem que Paulo está nos lembrando de seguir as Escrituras, e que essa distinção permanece válida.

Conclusão
Embora algumas pessoas se concentrem na distinção entre animais puros e impuros para decidir o que vão comer, há um movimento compassivo que busca nos lembrar de que o Jardim do Éden — o lugar ao qual os fiéis aspiram retornar — era um lugar de amor, compaixão e veganismo.
Não se trata de ser proibido comer carne, mas de reconhecer que isso não é uma virtude. Como diz o rabino Marc Gellman: “Comer carne é aceitável, mas podemos fazer melhor.
”Kittle nos lembra de que muitas de nossas crenças sobre os animais “não vêm da Bíblia, mas do hábito cultural”, e entender isso “pode nos permitir avaliar honestamente a violência da qual participamos hoje — não para que nos condenemos ou sejamos condenados, mas para que possamos nos afastar dela e nos unir a Deus na busca do Reino da Paz. Ao lermos a Bíblia, nossa oração deve ser para que Deus nos livre do mal de causar sofrimento desnecessário aos animais.”
Para aqueles que desejam ler mais sobre a Bíblia, os animais e o veganismo, recomendamos os artigos da SARX (disponíveis em inglês).



